terça-feira, 1 de abril de 2014


Solidão

E de repente o dia se fez noite, uma noite fria e tenebrosa
As estrelas, vaidosas, não mais exibiram seu brilho
Noite escura, vida escura....
E o sonho infantil se fora junto com as estrelas

Sim, tudo não passou de um sonho...

Uma mãe embala seu filho nos braços, cantando uma bela canção
Os olhos da mãe e do bebê se encontram e o pequenino acalma-se
O olhar da mãe passa-lhe confiança, proteção, aprovação
E o coração enche-se de alegria

De repente, não mais que de repente o bebê acorda-se
aturdido pela multidão que quer consumi-lo
O olhar da mãe já não está presente para guiá-lo e confortá-lo
A bela canção foi substituída pelas vozes atormentadoras que ecoam em sua cabeça

Mas, tudo não passou de um sonho...

A mãe, a linda canção, o aconchego de seus braços
Um sonho que é como uma pequena chama que nunca se apaga, mesmo com os mais violentos vendavais. Quisera eu viver esse sonho... por muitas vezes tentei, lutei, me machuquei até abandonar minha própria identidade em prol do amor infantil

Por desertos passei e dentre os espinhos tropeçei
As lágrimas escorreram do meu rosto como rios de sangue
E quanto mais perto eu pensava estar, mais longe eu estava de chegar
Como um viajante perdido que tenta regressar para casa, assim eu me encontrava

Mas que casa?

No meio a multidão sinto-me perdida... procuro destacar-me
Mas ninguém me enxerga. E a busca continua, busca desenfreada,
Descompassada. E de repente eu paro, penso...
E ao olhar para dentro de mim vejo ruínas. É tarde demais...
A guerra foi perdida e os mortos foram numerosos
Tento recomeçar, reconstruir a cidade, mas tenho que admitir:
É difícil, é muito difícil.

Então deixo tudo como está...
Impossível remover os escombros e ressuscitar os mortos
Mas a morte muitas vezes é necessária...
Indica um recomeço. Não a partir das ruínas, mas sim a partir
do presente.

Olho-me no espelho e vejo além da aparência exterior
Enxergo-me interiormente, para além dos escombros, dos mortos, da dor...
E finalmente vejo minha verdadeira essência, libertando-se das algemas
O processo é lento, mas já consigo ter um pequeno vislumbre da minha libertação!

sábado, 29 de março de 2014


As mãos...

Sentada em um banco ornado com ouro, no canto de uma bela sala, eu avistava você. Para ser mais preciso, eu observava atentamente suas mãos. Elas eram alvas e muito delicadas. Seus lindos dedos longos tocavam, ora ligeiramente, ora calmamente as teclas do piano, o qual se encontrava no centro da sala. Você não podia me enxergar, mas eu a via. Eu sempre a observei, desde quando você nasceu, quando chorastes pela primeira vez, quando destes os primeiros passos e aprendestes a falar. Sempre estive ao seu lado.  Te protegi quando você precisou, te orientei nos momentos de dúvida. E hoje, sentado aqui neste canto escuro a vejo tocar tão habilmente lindas canções. Estas canções me tranqüilizam, elas são um alento para o meu cansado coração. Oh, frágeis mãos quantas angústias refletem as melodias que tocas, pobre mão, tão delicada e pura. Sei que hás de encontrar sossego para tua aflita alma, assim como encontrei a paz através das canções que tocas!

Um anjo...



Um Anjo...

Era uma noite estrelada, eu dormia em meu quarto de janelas abertas sentindo a brisa gelada envolver meu corpo. Em meus sonhos eu visualizava luzes de cores diversas, azuis, rosas, verdes, douradas, todas em tonalidade clara. Eu flutuava entre as cores, tão leve e solta que não sentia meu corpo. Cada cor que eu avistava tinha um som que advinha do atrito das cores com a brisa... Mente vazia, alma flutuante e você neste instante...
Eras tu, meu anjo! De vestes brancas, olhos azuis como o mar, cabelos dourados que brilhavam sob a luz... Você se aproximava, juntamente com luz, em minha direção. Sua pele era tão alva que quase se confundia com a claridade que ofuscava meus olhos.
Tu seguraste minhas mãos, me envolveste com o calor do teu corpo. E foi deste modo, colada em seu corpo, sentindo cada batida do seu coração que permaneci durante horas, me deixando levar pela doce música que embalava nosso amor!
Eu era tão fria e só antes de conhecê-lo. Eu não acreditava em anjos, mas agora eu acredito em você, acredito na vida! Eu jamais esquecerei o momento em que nos vimos pela primeira vez e as cores de nossos olhos se confundiram. Você me enxergou como ninguém antes enxergara. Não houve troca de palavras, eu nem sabia seu nome, quem eras e de onde vinhas, entretanto, senti que era você a pessoa pela qual eu havia esperado durante tantas existências. Não sei como, mas de alguma forma, eu sabia que você viria ao meu encontro. És exatamente como eu imaginava!
És meu sonho lindo, minha força... Neste instante, abraçada em teu corpo, sinto sua respiração e o deslizar de tuas mãos sobre os meus cabelos. Você está cantando a nossa canção e é somente nela que eu penso. Meu Deus, por favor, não me deixe acordar deste sonho, pois me sinto segura e completa nos braços de um anjo!